Quarta Teoria Política (Excerto)

28.09.2012

 
Quarta Teoria Política (Excerto)

 

"Finalmente, o que se pode tomar emprestado do liberalismo? Aqui, como sempre, precisamos começar justamente com aqueles aspectos que não devem ser tomados de empréstimo. Talvez, nesse caso, exista uma descrição clara e bastante bem detalhada novamente em Alain de Benoist (Contra o liberalismo: rumo à quarta teoria política) , ao qual eu constantemente me refiro em minha explanação. Ora, o liberalismo é o principal inimigo da “Quarta Teoria Política”, a qual é construída especificamente com base na oposição a ele. No entanto, mesmo nele, como foi o caso com as outras teorias políticas, existe algo importante e existe algo secundário. O liberalismo, como um todo, apoia-se no indivíduo como bloco que o forma. Essas partes é que são tomadas como um todo. É talvez por essa razão que o “círculo hermenêutico” do liberalismo mostrou-se o mais durável: ele possui as menores órbitas e rotaciona ao redor de seu sujeito – o indivíduo. Para despedaçar esse círculo, devemos atingir o indivíduo, aboli-lo e lançá-lo na periferia das considerações políticas. O liberalismo está bastante ciente dessa ameaça e por isso empreende repetidas batalhas contra todas as ideologias e teorias – sociais, filosóficas e políticas – que porventura lesem o indivíduo, inscrevendo sua identidade num contexto geral maior. A neurose e os medos localizados no âmago patogênico da filosofia liberal podem ser vistos claramente no “Sociedade aberta e seus inimigos” , obra clássica do neoliberalismo de Karl Popper. Ele compara fascismo e comunismo com base precisamente no fato de que ambas ideologias integram o indivíduo numa comunidade supra-individual, em um todo, uma totalidade, o que Popper imediatamente tacha de “totalitarismo”. 
Ora, tendo minado o indivíduo como figura constitutiva de todo o sistema político e social, pode-se então pôr fim ao liberalismo. Isso, claro, não é tarefa fácil. Não obstante, é agora evidente que o aspecto mais fraco (e também o mais forte) da primeira teoria política (o liberalismo) advem de seu apelo adireto ao individual, seu apelo para que o individual permaneça sendo ele mesmo, por si só, em sua própria esfera autônoma, em sua singularidade, particularidade e parcialidade. Seja como for, a “Quarta Teoria Política” pode interpretar as fobias de Popper a seu favor (fobias as quais levaram a ele e a seus seguidores a adotar conclusões anedóticas – bem significativas foram suas críticas rasas a Hegel no espírito de PR negativa e as acusações de fascismo dirigidas a Platão e Aristóteles!). 
 
Compreendendo o que o inimigo mais teme, podemos propor a teoria de que toda identidade humana é aceitável e justificada, exceto a individual. O ser humano é tudo, menos um indivíduo, diremos. Agora é preciso olhar com atenção para um liberal quando ele lê ou ouve tal axioma. É de se supor que será um espetáculo impressionante – toda sua “tolerância” evaporar-se-á instantaneamente, enquanto os “direitos humanos” serão atribuídos a todo mundo, menos àqueles que se atreverem a proferir tal heressia. Isso, no entanto, eu já descrevi com mais detalhes em meu ensaio “Humanismo Máximo ”, bem como em meu livro “A filosofia da política ”. O liberalismo, dizíamos, deve ser enfretando e destruido e o indivíduo, retirado de seu pedestal. Ainda assim, há algo que podemos tomar emprestado do liberalismo – do mesmo liberalismo que foi hipoteticamente vencido e perdeu seu eixo?
 
Sim, há. 
 
A idéia de liberdade. Não apenas a “liberdade para” – aquela mesma liberdade substantiva rejeitada por Mill em seu programa liberal centrado na “liberdade de” (de estar “livre de”). Devemos dizer “sim” à liberdade em todos os seus sentidos e em todas as suas perspectivas. A “Quarta Teoria Política” deve ser uma teoria de absoluta liberdade, mas não como no marxismo, no qual ela coincide com a absoluta necessidade (essa correlação tira da liberdade seu cerne). Não, a liberdade pode ser de qualquer tipo, livre de qualquer correlação ou falta dela, voltada para qualquer direção ou objetivo. A liberdade é o mais caro valor da “Quarta Teoria Política”, o qual coincide com seu centro, sua dinâmica, seu âmago energético.
Entretanto, tal liberdade é concebida como a liberdade humana, não a liberdade de um indivíduo – como a liberdade do “etnocentrismo” e a liberdade do Dasein, a liberdade da cultura e a liberdade da sociedade, a liberdade para qualquer forma de subjetividade, exceto aquela de um indivíduo. Indo pela direção oposta, o pensamento europeu já tinha chegado a uma conclusão diferente: “o ser humano (como um indivíduo) é uma prisão sem paredes” (Jean Paul Sartre); ou seja, a liberdade de um indivíduo é uma prisão. Para atingir a verdadeira liberdade, devemos transcender os limites do individuo. Nesse sentido, a “Quarta Teoria Política” é uma teoria de libertação, de superação das paredes da prisão do mundo exterior, que começa onde a jurisdição da identidade individual termina.
 
A liberdade está sempre plena de caos e aberta a oportunidades. Colocada no quadro estreito da individualidade, a liberdade se apequena, tornando-se microscópica e, em última instância, fictícia. A um indivíduo pode ser dada liberdade justamente porque ele não tem como lidar com ela devidamente – ela permanecerá contida nos limites de sua individualidade e sua esfera. Eis o outro lado da moeda do liberalismo: no seu âmago, ele é totalitário e intolerante no que diz respeito às diferenteças e à implementação de uma vontade maior. Ele só está preparado para tolerar pessoas pequenas; o liberalismo protege não tanto os direitos do homem, mas antes os “direitos do homem pequeno”. Esse “homem pequeno” pode fazer tudo porque, apesar de sua vontade, ele não conseguirá fazer nada. Contudo, além do “homem pequeno”, do outro lado do “humanismo mínimo” começa a despontar o horizonte da liberdade. É também lá que começa o grande risco e os verdadeiros perigos. Deixando para trás os limites da individualidade, o homem pode ser esmagado pelos elementos da vida, pelo terrível caos – o direito de um grande homem (“homo maximus”) – um verdadeiro homem do “Ser e Tempo” (Martin Heidegger). Essa ordem possível, como qualquer outra, pode tomar formas individuais. Só que não se tratará de individualidade, mas de individuação; não se trata de rotações vazias em torno daquilo que é dado e que é insignificante, mas a execução de tarefas, bem como a domesticação de tudo que é caótico e dos horizontes emocionantes da vontade.
 
O portador da liberdade, nesse caso, será o Dasein. As ideologias anteriores – cada uma a seu modo – alienaram o Dasein, esvaziando-o de seu sentido, restringindo-o, imprisionando-o, de uma forma ou de outra, tornando-o inautêntico. Cada uma dessas ideologias colocou um boneco triste – das Man – no lugar do Dasein. A liberdade do Dasein está na implementação da oportunidade de ser autêntico: ou seja, na percepção mais do “Sein” do que do “da”. O “Ser-aí” (ser-aí-no-mundo) consiste em um “aí” e em um “Ser”. Para compreender onde esse “aí” se localiza, deveríamos destacá-lo e fazer um gesto fundacional básico. Mas, para que o “Ser” possa fluir no “aí” como uma fonte, precisamos colocar tudo isso junto – pôr todo esse “círculo hermenêutico” no domínio da completa liberdade. Portanto, a “Quarta Teoria Política” é, ao mesmo tempo, uma teoria ontológica fundamental que contem a consciência da verdade do Ser em seu âmago."
 
Trecho da Quarta Teoria Política de Dugin, que estou traduzindo (do inglês, não do russo).
Ficou muito repetitivo (liberalismo/liberalismo), mas sacrifiquei a beleza do estilo pela clareza do sentido e tal - não é literatura.
Por Uri Irigaray.