Claudia Sheinbaum: Continuadora de López Obrador ou o "Lenín Moreno" do México?

06.06.2024

Já escrevi profissionalmente sobre a Sheinbaum e sua vitória nas eleições presidenciais mexicanas, e agora acrescentarei algumas notas extras com algumas avaliações e opiniões adicionais.

Em primeiro lugar, é impossível dissociar a vitória de Sheinbaum do trabalho desempenhado por AMLO ao longo dos últimos 6 anos. Por mais imperfeito e vacilante que tenha sido, o governo López Obrador conseguiu apresentar melhoras significativas em cada aspecto de suas atribuições em comparação com os governos anteriores.

Da construção de grandes obras de infraestrutura (refinaria, ferrovia, aeroporto) à manutenção de um quase pleno emprego, passando por certa valorização da cultura nacional, crescimento econômico, enfrentamento a interesses comerciais cosmopolitas, etc.

De modo geral, os resultados positivos são verificáveis e quantificáveis. Os mexicanos estão, majoritariamente, satisfeitos com López Obrador e ele poderia ser reeleito...se houvesse reeleição no México.

O problema é que, em um sentido concreto, López Obrador não tem sucessor. Pelo menos nenhum que siga o mesmo estilo de fazer política, que se acomoda naquilo que é hoje chamado de "populismo". Inclusive porque Sheinbaum se distanciou publicamente de López Obrador durante a campanha, inclusive recusando-se a defender o legado de seu governo. Nesse sentido, a comparação com a eleição de Dilma, na rebarba de Lula é válida, mas Sheinbaum, diferentemente de Rousseff, já mordeu a mão que a alimentou antes mesmo de ser empossada.

A candidatura do Morena foi disputada entre Claudia Sheinbaum, prefeita da Cidade do México, e Marcelo Ebrard, Ministro de Relações Exteriores do México. Mas a disputa entre os dois é mais uma questão de "caciquismo" político entre setores das elites mexicanas do que qualquer outra coisa. No máximo, pode-se dizer que Sheinbaum é um pouco mais perto da linha "democrata" e Ebrard é um pouco mais perto da linha "republicana", mas ambos estão ligados a Davos, ambos são partidários dos valores liberal-progressistas, etc.

Aliás, o próprio López Obrador é liberal-progressista. Mas não foi com base nisso que ele se elegeu. Tal como Lula em relação ao Nordeste, a face eleitoral de AMLO junto ao povo possui um enfoque mais social e conservador, ao mesmo tempo em que seus ministérios e políticas públicas atuam, na prática, de forma progressista.

De modo que Sheinbaum não venceu por ser "woke" ou por não haver rechaço do povo mexicano ao "wokismo". E sim porque tanto a sua rival Xochitl Galvez, quanto o seu rival interno, Ebrard, se pautam pelos mesmos princípios liberais. Não havia, eleitoralmente, qualquer opção conservadora no México, diferentemente de muitos outros países.

Evidentemente, como essas pautas chegaram atrasadas no México, ainda não houve tempo para o desenvolvimento de uma oposição política conservadora-revolucionária à linha liberal do Morena - apesar de que, entre os índios de Chiapas, por exemplo, e em outras zonas carentes e indígenas, que são as mais conservadoras do México, a insatisfação com o Morena é crescente.

Agora, Sheinbaum, é claro, vai além do wokismo "macronista" que é praticamente parte da ideologia oficial das elites mexicanas hoje. Ela é também uma alarmista climática e promete retirar o México da política energética centrada na PEMEX, do AMLO, em prol de uma política energética ecomundialista.

Tendo emergido politicamente a partir de bolsas de estudos da Fundação Rockefeller, ela também esteve reunida recentemente com Larry Fink, da BlackRock (um personagem que não é apenas um "investidor", mas também um ideólogo globalista), para debater os futuros do México. Novamente, para que fique claro, Fink esteve também com Galvez.

No âmbito internacional, Sheinbaum é críptica. Todos sabem que ela é de origem judia (segundo alguns, cabalista), mas ela guarda silêncio tanto em relação à Questão Palestina, como em relação ao conflito russo-ucraniano, de modo que não é possível prever como o México se posicionará em qualquer um desses temas.

Em suma, há muito de críptico nos rumos que serão seguidos pelo México sob a liderança de Sheinbaum, ainda que ela tenda a ser obviamente mais liberal, mais progressista e mais cosmopolita que AMLO.

Mesmo que não haja qualquer ruptura radical com o governo anterior ou qualquer mudança de 180º, que ninguém se surpreenda se com ela se passar o mesmo que vimos com Lenín Moreno, do Equador, em relação a Rafael Correa.